quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Sombra do tempo

"Aquele pássaro que eu era sou
ainda, ainda que pareça morto
ou em repouso aqui nesse aeroporto
sem expresso desejo alçar vôo."

Soneto 43 - Tite de Lemos

Deves sempre rir-se de mim
Quando escutas falar de meus moinhos.
"Ai, coitado, anda tão sozinho...
que delira com o próprio fim."

Eu rio, rio em meio ao pranto
Insano, sádico e absorto
Não há futuro, meu destino é torto
E faço de todo lamento um canto.

Não digo que de tudo serei atento
Nem sempre, nem tanto por quanto que finda
Mas, te legarei em prece meu alento.

O futuro é o infinito que nos brinda
Deixo este recado na sombra do tempo:
"Aquele pássaro que eu era sou ainda"

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Te esperei


te esperei pra dançar
eu sentei e esperei
criei musgo e flori
beija-flores beijei
como onda do mar
você passou, eu sorri

sábado, 28 de dezembro de 2013

É quanto vale cada grão de areia do Saara

Quero em prosa a distancia perfeita
Do meu olhar para o teu
Que não lhe deixe sombra de suspeita
Do tamanho amor meu.

Que estes versos, os quais metrifico,
Possam te medir exatos palmo a palmo
Quero um canto de amor, eu quero um salmo
Quero o sol, quero a paz e o castigo.

Adormecer em tua cama, ir ao teu cais
Que o sonho nos embale docemente
Pensar em ti e por fim me esquecer.

Lembrar também que nosso silêncio fala mais
Que a língua mais eloqüente
Arder em febre de amor, adoecer.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ex Nihilo Nihil

Não te iludas com os meus poemas tristes
O meu eu-lirico, que te descreve em versos
Teu eu-ninfa, que nos meus sonhos persiste
Teu eu-carne, meu eu-terra, teu eu-sexo.

O Sol trará alegre este meu manifesto

Foi-se embora dos meus versos o pranto
Silenciosos gritos enamorados e, no entanto,
Meu eu-nuvem te choverá o mais modesto

Meu eu-fome, que suplica os olhos teus

Teu eu-lua, que insiste em dar-me o inverso
Meu eu-carne, teu eu-lua, meu eu-sexo

Adeus, adeus... Me diz teu eu-perverso

E, nada digo, pois, no início meu eu-deus
Fez de ti um outro, e vasto, universo

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Ópios Voláteis

Foram flores os tais versos que não disse
Como rosas se despetalando ao vento
Versos pobres, cheios de arrependimento
Versos vãos, detalhando o que não existe

Como o sexo das plantas aflorando
Perfumando nossos ares e dizendo
Eia, atentos pois que dura um momento
E repete-se, silencioso e brando

Vai brotando em meu ser a tal semente
Os teus olhos são dois frutos bem maduros
Brota um rio de nossa pele suave e quente


Deslizando por esguios leitos escuros
Contraindo os nossos corpos de serpente
Um beijo sela nosso amor ardente e puro