sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ex Nihilo Nihil

Não te iludas com os meus poemas tristes
O meu eu-lirico, que te descreve em versos
Teu eu-ninfa, que nos meus sonhos persiste
Teu eu-carne, meu eu-terra, teu eu-sexo.

O Sol trará alegre este meu manifesto

Foi-se embora dos meus versos o pranto
Silenciosos gritos enamorados e, no entanto,
Meu eu-nuvem te choverá o mais modesto

Meu eu-fome, que suplica os olhos teus

Teu eu-lua, que insiste em dar-me o inverso
Meu eu-carne, teu eu-lua, meu eu-sexo

Adeus, adeus... Me diz teu eu-perverso

E, nada digo, pois, no início meu eu-deus
Fez de ti um outro, e vasto, universo

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Ópios Voláteis

Foram flores os tais versos que não disse
Como rosas se despetalando ao vento
Versos pobres, cheios de arrependimento
Versos vãos, detalhando o que não existe

Como o sexo das plantas aflorando
Perfumando nossos ares e dizendo
Eia, atentos pois que dura um momento
E repete-se, silencioso e brando

Vai brotando em meu ser a tal semente
Os teus olhos são dois frutos bem maduros
Brota um rio de nossa pele suave e quente


Deslizando por esguios leitos escuros
Contraindo os nossos corpos de serpente
Um beijo sela nosso amor ardente e puro

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Laudatio

Fulgurada culpa meu semblante exprime
Culpa esta que o fundo não se alcança
Maldita lâmina a qual cometo este crime
Penetra o peito, fulmina toda a esperança

E quantos "ais" ainda dirão estes meus lábios
Que desconhecem outros lábios traiçoeiros
Dou minha paga, três moedas ao gondoleiro
Vamos cantando estes lamúrios tristes e sábios

Eia! Que a vista, no caminho, já se entreva
Todos os anos se esvaem num segundo
Nenhuma pena vale o que minha mão escreva

Esvaem-se desejos deste peito, mas bem profundo
Pouco a pouco algo muito maior se eleva
Acabar-se em versos, abraçar a dor, beber o mundo!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Morfologia

Mentimos, eu, quando lhe disse - Fico
Tu, quando me disseste - Vou
Estás em meu peito e agora sou
refém, em nada mais me qualifico.

Eu nunca soube o que é amor e quis amar
E tu, que muito suspeitavas, nunca quiseste
Deixou escrito "Ó coração, não há quem preste"
A aleivosia te enfeitiçou, banhou-se em mar.

Enfim, sentiu algo muito maior que a dor
Algo assim que deixou tudo ao contrário
Uma cantiga de criança e um amor

E olhe só o quanto ainda sou otário
Levo este lema, que ganhei, aonde for:
"Otário, otário, otário e só, solitário."


sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Profetisa

Como não ser refém destes teus olhos?
E tua boca quase nunca emudecida
Que de perguntas me inundava e ainda
Inunda de emoções a minha alma adormecida

Viva fera se esconde entre estes ossos
Entre estas carnes, habitam sonhos mais profundos
De nada vale, perder o amor e ganhar o mundo
Ainda vigora, tem muita força, há de ser nosso!

O medo de um futuro podre nos profana
Que deste incerto de batalhas não nos zangue
Este egoísmo que se encontra a mente humana

Mas bela voz se ergue em meio a este mangue
Coube aos teus olhos e doces lábios de cigana
Dizer: "Que triste, a liberdade cheira a sangue!"
















La Liberté guidant le peuple, Eugène Delacroix - 1830