sábado, 20 de dezembro de 2014

Pula-pula


A menina pula
De poema em poema
Feito traça devora
Os olhos de Iracema
Já devorou Grande Sertão
Em cem anos de solidão
Vinte sonetos de amor
E uma canção desesperada
Pula, pula minha amada
Pula logo para o refrão
Em que te digo: Eu te amo
Que o amor nunca é em vão.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O déspota


   Há dias que minha cama é um sofá
Que minha cabeceira é uma biblioteca
Que meu pensamento é em você
Busco o inteiro, mas sou os cacos.

  Alguém morreu quando te conheci,
Houve um massacre quando te beijei,
Um genocídio enquanto te amei
Só houve rosas quando enfim morri.
 

  O que de verdadeiro na vida fui?
Se passei a tudo isto indiferente
E indolor a tudo o que influi

   E eu que sempre me fiz de ausente
Resguardo os versos que a ti deixei
Como se a morte fosse meu presente.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A menina e a flor


Já me acostumei com teu nome de passarinho
E teu temperamento dócil e espavento
Vem e traz tamanho contentamento
Que de tão grande me faz pequenininho.

Me faz sentir bobo como um menino
Que ainda embestado de tudo acha graça
Meu amor me levou a passear pela praça
Tua voz ouvi em meio ao dobrar do sino.

Era tudo tão a mesma coisa antes de ti
Em tudo havia uma enorme fadiga aflita
As coisas estavam cansadas, todas as coisas eu vi

Mas ao leve trinar, que sua voz sucita,
Sinto um algo que nem em outra vida senti
Brotou, quis ser, e tudo enfim ganhou vida.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Memento Mori (Lembra-te que morrerás)


"Dirão em som, as coisas que, calados, pelo silêncio dos olhos confessamos?" Saramago

Ao ver-te eu tremo
um tremor de contemplar abismos
tremor em ode à morte que sismo
em declamar em versos serenos.

O medo se soma ao medo
e a verdade, sob que friso?
Em qual canto do teu sorriso
se esconde meu engano ledo?

Que buscará em corpos frios tuas mãos?
Que busco eu no negro vão do precipício?
Ambos dançamos entre estes que se julgam sãos

Ambos matamos, em altas doses, nossos vícios
E assim faremos de nossa arte obsessão...
Minhas mãos trêmulas buscam as tuas em um hospício.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Mundos negros


Ando por mundos negros
Mundos tão negros que nada pode iluminá-los
Inundados mundos de desejo
No paradoxo de não haver candeeiros para enxergá-los.

"O mundo atrás de mim é maior que o mundo à minha frente"
Dizia um senhor, que certo dia conheci,
seu maior arrependimento era o de não ter tido olhos em suas costas,
para que com orgulho ainda pudesse contemplá-lo.

E entre mundos e olhos negros,
dediquei minha vida a pequenos velórios:
Em cada manhã enterro uma noite
Em cada noite enterro um dia.

Os anos que se vão ganham atenção especial
Juntam-se amigos e parentes, entoam-se hinos
com todas as pompas de corpo presente.

Enquanto a mente divina anda perdida
entre mundos e olhos, pequenos velórios e eterno luto.
No peito animal quase não bate o coração moribundo!