sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Profetisa

Como não ser refém destes teus olhos?
E tua boca quase nunca emudecida
Que de perguntas me inundava e ainda
Inunda de emoções a minha alma adormecida

Viva fera se esconde entre estes ossos
Entre estas carnes, habitam sonhos mais profundos
De nada vale, perder o amor e ganhar o mundo
Ainda vigora, tem muita força, há de ser nosso!

O medo de um futuro podre nos profana
Que deste incerto de batalhas não nos zangue
Este egoísmo que se encontra a mente humana

Mas bela voz se ergue em meio a este mangue
Coube aos teus olhos e doces lábios de cigana
Dizer: "Que triste, a liberdade cheira a sangue!"
















La Liberté guidant le peuple, Eugène Delacroix - 1830

sábado, 18 de maio de 2013

As portas

As portas, todas essas portas,
Com seus trincos e suas trancas
Fechadas, nosso caminho atravanca
Abertas, quem repara? quem se importa?

Se bater, quem será que atenderia?
Saberei entender quem me atende?
E se, ao me ver, quem atender se surpreende?
Na surpresa de atender me entenderia?

E estas portas do teu corpo, da tua alma?
Estas grossas portas, frias e carrancudas
Para abrí-las em teus molhos perde a calma
Que nestas chaves desiludidas não te iludas.

E quantas portas eu cruzei para encontrá-la?
E quantas cruzo ainda em cada reencontro?
Elas se abrem, elas se fecham, há um desencontro
E a esperança ainda bate: "inda hei de amá-la".

Eis portas duras, eis portas graves, dela me privam
Portas cruéis que guardam e tracam coisa tão bela,
Teu coração, mas teus olhares nos meus motivam
A ser ladrão e roubar-te amor pelas janelas.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Nosce te ipsum

Tua figura se agiganta no horizonte
Teus lábios beijam o anil como a serra
Os teus seios se elevam em dura terra
Vão tuas pernas torneando lindo monte

Vão teus braços ondulando como rios
Tuas mãos enraizando vasta mata
São teus olhos sol e lua intemerata
Teus cabelos vasto e fundo mar sombrio

As muralhas de teus pés guardam segredo
No teu ventre forma um vale silencioso
Te chamei para ver-te, que engano ledo,

Me perdi num vale frio e doloroso
Entre matas, mares, rios e rochedos
Não é de perto que se enxerga o grandioso.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Espero que este exemplo não seja distante demais

Aqui, neste canto, um sonho se desfez
Escondo meus olhos, de engano, que choram
Já raia outro dia meus olhos o ignoram.
E eu que era um, agora sou três
 
Ai, que a saudade me mata outra vez
E, outra vez mais, outonam as lembranças
A vida, quando esfria, encolhe a esperança
E morrem crianças por eu ser freguês.
 
Espero, algum dia, poder compreender
Que tudo se finda e dura um momento
E ainda deseje qualquer sentimento
Apaga-se a lousa e retoma à escrever.
 
E isto te escrevo, à você que agora lê
Te amarei algum dia, mesmo assim, sem saber
Porque amo e esqueço, amo assim, sem valer
Mas esse já não sou eu, este agora é você.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Crise de meia idade

Trabalha com o que não gosta
Recebe o  que não merece
Compra o que não precisa
Gasta o que não tem
Perde o que tem
Passa o tempo
Envelhece
Morre
Fim
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